quarta-feira, 11 de novembro de 2009

As memórias de infância de Augusto de Castro (in prefácio a livro de Ricardo Souto - 1937)

O livro que o meu velho amigo Dr. Ricardo Souto acaba de me enviar em provas e para o qual, afectuosamente, deseja algumas palavras minhas de introdução, é sobretudo para mim uma evocação dos doces, frescos e cantantes vergeis do Vouga, em que meus primeiros anos decorreram.

Recordações de Infância (I)

O túnel de Angeja, a pateira de Frossos, as estradas e as tricanas, a ria, as fontes, os cômoros, os milharais ao vento, o ar lavado dos montes, os adros floridos, os pinhais e as eiras - todo o horizonte da minha infância e da minha adolescência revive, a meus olhos, nesta tarde pálida da Belgica em que escrevo. Oiço os rebanhos nos campos, revejo o milho doirado ao sol, contemplo de novo sobre as areias claras, as águas do Vouga que brincam com os salgueiros e as codornizes - e, de longe, à distância de tantos anos, eu vos bemdigo, oh bemfazejas saüdades! (...)

"Soutos da Barca"

Ricardo Souto, o autor deste livro, que tenho a honra de prefaciar, foi um dos amigos dessa minha remota infância e creio que é a este facto, para mim inolvidável, que devo o prazer de ligar, nesta obra, o meu nome ao seu. Meu Pai, cuja memória, querida e ilustre, para mim está ligada a esta região falava constantemente dos "Soutos da Barca". Os Soutos da Barca eram Ricardo Souto, então jovem e distinto médico e seu irmão, estreitamente afeiçoado à minha família, e que foi um eminente magistrado.

Do Porto para o Fontão

Nascido no Porto, tripeiro de origem, foi nas terras do Vouga que passei, posso dizer, a minha infância. De lá, espiritualmente, parti. Quando meus Pais vinham passar as férias do Natal, da Páscoa ou as férias grandes ao Fontão, a pouco mais de três quilómetros de Angeja, começava para mim a grande evasão rústica da aldeia que foi a primeira e a melhor escola do meu espírito. Se mais tarde, a vida me separou dessas primeiras afeições, nunca, na realidade, as esqueci.

Recordações de Infância (II)

Como as païsagens, as figuras que conheci nesse tempo vivem na minha memória como se as tivesse ainda visto ontem: o Padre Santos, alto e espaduado, bom como uma criança, a reger a charanga de Frossos com o seu grosso bengalão de marmeleiro; o Padre José Luiz, o "Padre Zézinho", que tinha e, felizmente, ainda hoje tem talento e graça às carradas; o Castanheira, o Laranjeira, grandes amigos de meu Pai, o Manuel Maria de Angeja, em cuja casa, durante a festa da Senhora das Neves, se comiam os melhores leitões assados da região; os Lemos de Alquerubim (para onde a vida os dispersou?) e tantos outros que povoam ainda hoje de recordações, de pitoresco e de estima o meu espírito.

Ilustres visitantes

Todos eles vinham - uns de longe, outros de perto - assistir à festa da Senhora do Carmo, na Capela da nossa casa - festa que, ao som das músicas ao desafio e dos morteiros - missa, arraial, fogo preso - se prolongava por três numerosos dias de danças e descantes.

Lá estiveram, o poeta João Lúcio, o grande cantor do Algarve, meu companheiro de Coimbra, morto pouco depois, Júlio Dantas, descido do seu Olympo de Lisboa e Carlos Malheiros Dias que lá começou o primeiro capítulo dum romance, nunca concluído, sobre as tricanas de Aveiro, as lindas tricanas cujo encanto fenício conta entre os mais belos tipos de beleza feminina do mundo.

Esse capitulo de Malheiro Dias, que nunca foi conhecido, que eu saiba, descrevia uma pescaria no Vouga e era uma obra prima. Onde pára hoje e porque não publicá-lo? (...)

Livros regionais

Os livros regionais não são frequentes em Portugal - é pena. Eles constituem um dos mais úteis e significativos géneros literários - depósitos muitas vezes preciosos, de conhecimentos, de investigações e de documentação para a história geral do País.

O livro do Dr. Ricardo Souto, vai figurar, com um brilho especial, nessa galeria de estudos e de aspectos nacionais. E eu sinto-me feliz de aqui deixar a minha homenagem ao autor, com o tributo de estima ao amigo, e a evocação, para mim sempre saudosa, das memórias e das perspectivas que estas páginas, entre tantas figuras e coisas vivas e mortas, ressuscitam no meu espírito fiel ao passado e diante dos meus olhos exilados.

Fonte: Prefácio de Augusto de Castro* no livro "Angeja e a Região do Baixo Vouga" de Ricardo Nogueira Souto (in Novos Arruamentos)


Augusto de Castro

Augusto de Castro foi político, escritor e diplomata e ainda director do jornal "Diário de Notícias". Era filho do Conselheiro Augusto Maria de Castro que possuía uma casa no Fontão. [A Quinta do Fontão].

Benemérito de Angeja, Augusto Maria de Castro era filho da nobre "Casa da Oliveirinha", tal como os Conselheiros José Luciano de Castro e Castro Matoso.

Texto integral: Novos Arruamentos

2 comentários:

Anónimo disse...

Augusto de Castro foi director do DN mas não d'O Século.

Blogger disse...

Carlos Malheiro Dias, autor de "Os Telles de Albergaria", andou por Angeja. Terá sido antes ou depois do lançamento do referido romance ?